O que é e quem organiza
A Homo Faber é a bienal da Michelangelo Foundation for Creativity and Craftsmanship, instituição sem fins lucrativos com sede em Genebra. A edição de 2026 tem curadoria da fundação e parceria da Fondazione Giorgio Cini e da Fondazione Cologni dei Mestieri d’Arte. Segundo o comunicado de abertura, 85% dos artesãos expõem na bienal pela primeira vez.
A direção artística é da artista e designer britânica Es Devlin. O conceito parte do arquipélago da laguna: cada artesão é tratado como uma ilha de talento, e a luz, trabalhada com água, espelhos, movimento e som, conduz o visitante da oficina aos materiais e aos objetos prontos. No comunicado, Devlin diz que quer que o público saia entendendo a etimologia dos objetos, as mãos que os fazem e as condições em que são feitos, e que nunca mais pegue um objeto sem pensar nas etapas que o trouxeram até ali.
Quando e onde
De 1º a 30 de setembro de 2026, todos os dias, das 10h às 19h, com última entrada às 17h. A organização recomenda reservar pelo menos duas horas. A ilha de San Giorgio Maggiore fica a cinco minutos de barco da praça San Marco. Quem compra ingresso online usa um barco gratuito que sai de San Marco-San Zaccaria (píer B1) a cada 30 minutos, a partir das 9h30. O vaporetto 2 também para na ilha.
As 15 salas
O e-catálogo oficial descreve as 15 instalações na ordem do percurso. A Language of Hands abre a visita com a recriação de um ateliê e um poema visual projetado na parede. An Index of Artisans cobre as paredes com centenas de fotos retroiluminadas de quem fez os objetos.
Algumas salas se organizam por material. A Rooted Ascent, em espaço restaurado pela fundação em 2024, divide uma arquibancada de cortiça em dois lados: de um, objetos de madeira; do outro, trançados de vime, salgueiro e junco, com marceneiros e cesteiros trabalhando ali. A Rainbow of Forms junta plástico, esmalte, resina e vidro em prateleiras espelhadas, sobre um tapete inspirado na Teoria das Cores de Goethe, desenhado por Devlin e feito pela Jaipur Rugs.

A Feast of Light, no refeitório palladiano, reúne objetos brancos de porcelana, vidro, tecido e papel numa mesa de luz, cortada por um feixe vertical. Atrás da parede fica o fac-símile de As Bodas de Caná, de Veronese.

Outras giram em torno da luz e do reflexo. Em An Alphabet of Objects, mais de 200 obras ficam numa estrutura cinética iluminada por trás, e as silhuetas viram uma escultura de sombra nas paredes. Em A Full Moon Rising, na antiga piscina da fundação, moon jars (o vaso coreano de silhueta de lua) e vasos parecidos, em cerâmica, papel, vidro e metal, ficam numa estante semicircular que se completa no reflexo da água. Em A Great Turning, no claustro palladiano, um espelho cinético inspirado no desenho das gotas de chuva gira sobre um espelho d’água.


O processo fica em An Atelier Alive, que a organização chama de coração da mostra: um ateliê real onde artesãos de porcelana, couro, papel e têxtil trabalham diante do público, ao lado de restauradores do World Monuments Fund, do Museo Poldi Pezzoli e da Open Care. Em A Place for Workshops, apresentada pela Mazda, dá para fazer kintsugi ou gravar um carimbo hanko.
As aves aparecem em duas salas. A Luminous Ark pendura sobre a escadaria do refeitório esculturas de papel da artista chinesa Wen Qiuwen, feitas a partir de desenhos de aves venezianas de Devlin e da equipe dela; no mesmo lugar, o origamista italiano Giuseppe Romeo conduz uma oficina gratuita de flores de papel. An Infinite Birdsong mostra joias em forma de aves e insetos.

Nos jardins, A Library of Lungs espalha estruturas de compensado curvado, baseadas nas esculturas de papel de Devlin, com caixas de som que “respiram”. Em Twenty Silent Songs, no Claustro dos Ciprestes, 20 obras de 20 países recriam os padrões cimáticos da vibração de 20 sinos. O percurso termina no Labirinto Borges com Come Home Again Venice, tapeçaria desenhada por Devlin e tecida pela italiana Bonotto com plástico reciclado, lã virgem e papel washi, em 500 horas.

Quem expõe
O e-catálogo lista, entre outros, os moon jars Lingering Snow e New Moon Jar, do sul-coreano William SH Lee; Rivivo, da vidraria italiana Venini; Ghost Pigeon, do japonês Taiichiro Yoshida; e Moonflower, da britânica Ann Carrington. Do Brasil, aparecem o Instituto Renato Imbroisi, com Meu céu, meu mar, meu lar, e Silvia Furmanovich, com os centros de mesa Magpie & Sun e Owl & Moon. As fotos de imprensa incluem ainda o Garnet Flame Basket Set, de Dale Chihuly.
A programação diária traz demonstrações ao vivo. No dia 21, por exemplo, havia pintura em porcelana com Jayne King, Tholu Bommalata (histórias em couro e luz) com Kanday Anjannapa, vitral com Virginie Vandeputte e restauro com Yolaine Voltz. Nas salas, 90 Young Ambassadors, estudantes de 62 escolas de artes aplicadas e design em 23 países, atendem o público.
Todos os expositores concorrem a três prêmios de 10 mil euros cada, votados pelo público (pelo aplicativo da Homo Faber), por jornalistas convidados e pelos Young Ambassadors. Os vencedores saem no último dia.
O que a fundação diz sobre a IA
O contraste com a inteligência artificial aparece no comunicado de abertura, na voz da própria fundação. Hanneli Rupert, vice-presidente executiva, diz que a edição chega num momento em que a tecnologia gera imagens, imita vozes e reproduz formas com eficiência, e que muita gente está redescobrindo a fome de autenticidade e de valores humanos. Segundo ela, Devlin foi convidada porque a prática da artista lembra que é possível usar a tecnologia sem ser controlado por ela.
Alberto Cavalli, diretor executivo da fundação, vai na mesma linha: “Quem sonha com inteligência artificial é livre para isso, mas há outros sonhos com o mesmo direito de existir.”
Ingressos
A inteira custa 16 euros. A meia, de 10 euros, vale para estudantes, maiores de 65 anos, grupos, jovens, moradores de Veneza e famílias. Crianças, pessoas com deficiência e guias de turismo não pagam. O ingresso tem horário marcado, é pessoal e não aceita troca nem reembolso; a venda é pelo site, com poucos ingressos na bilheteria no dia. As oficinas de kintsugi e hanko custam 10 euros à parte, a partir de 10 anos, com reserva.
Pela cidade
O programa Homo Faber in Città leva duas exposições à Casa Sanlorenzo, com entrada gratuita: Ca’ Riflesso, da Artemest, com artesãos de Veneza e do Vêneto, e Fiat Lux, da De Mains De Maîtres Luxembourg, com artesãos de Luxemburgo. Cerca de 130 oficinas venezianas cadastradas no Homo Faber Guide abrem as portas ao público em setembro, sem reserva.
Contexto
Es Devlin apareceu no Mooni no post sobre a capa sanfonada que ela fez para os 30 anos da Wallpaper*. A biografia no site dela lista exposições monográficas previstas para 2026 no Design Museum, em Londres, e na Powerhouse Parramatta, na Austrália.



