Uma revista de ensaios guiada por um mote
A Cobogó descreve a Mote como uma revista semestral de ensaios escrita e produzida por intelectuais e pensadores sobre temas contemporâneos. Cada edição é guiada por um mote, uma palavra polissêmica que serve de pontapé e provocação e articula textos e produções visuais. A revista é impressa, nas palavras da editora, para ser folheada sem pressa.
A Mote ganhou seção própria na loja, ao lado de coleções como Cabeças da Periferia e O Livro do Disco, o que indica publicação continuada e não número único. Ali a editora usa outra definição: em vez de intelectuais e pensadores, fala em pesquisadoras e pesquisadores, e promete edições que abrem conversas por caminhos por vezes inesperados.
O número 1
Começo. Os textos exploram nascimento, emergência, ascensão e invenção, e alguns vão pelo avesso: fins, mortes e decadência. Assinam o físico Pedro Lisboa, os antropólogos Adriana Vianna, João Biehl, Karen Shiratori e Emanuele Fabiano, o filósofo Pedro Pimenta, o sociólogo Luiz Augusto Campos, a historiadora Ynaê Lopes dos Santos e os economistas Pedro Souza e Samuel Maia. Os ensaios visuais são de Juliana Lapa e Raylton Parga.
Nas páginas que a editora mostra, dá para ver como o mote se espalha por campos distintos. Na página 23, um ensaio de física conta a descoberta do pósitron em 1932, passa por Ernst Stückelberg e Richard Feynman nos anos 1940 e chega ao universo com dez segundos de idade e 3 bilhões de graus. Na página 160, um ensaio de história trata do concurso do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1838, do racismo científico do século XIX e da Lei Feijó de 1831.

O objeto
Capa e projeto gráfico do Bloco Gráfico. Na capa, chamas pintadas em laranja sobre papel branco texturizado, o nome em letras pretas pesadas com o O furado por um ponto e a perna do E vazada em branco e laranja, o subtítulo ensaios contemporâneos logo abaixo e a palavra Começo sozinha no canto inferior.
O Bloco Gráfico é um estúdio formado por Gabriela Castro, Gustavo Marchetti e Paulo Chagas, com equipe de quatro pessoas, especializado em projetos editoriais, expográficos e de identidade visual. Na lista de clientes estão Instituto Moreira Salles, Masp, Sesc-SP, Companhia das Letras, Galeria Nara Roesler, Carambaia, Fósforo, Beĩ, MAM-Rio, CCBB, MACBA e Baltic Centre for Contemporary Art. Ganhou duas vezes o prêmio Aloisio Magalhães de melhor projeto gráfico de livro da Fundação Biblioteca Nacional, em 2017 e 2018, o Jabuti de projeto gráfico em 2023 e o Best in Show do Type Directors Club de Nova York em 2019.
Como o miolo se comporta
O texto corre em duas colunas de tipo serifado, com entrada de parágrafo recuada, versalete nas siglas e fólio em negrito no pé. Quando a imagem manda, a diagramação abre: a coluna de texto some e a página inteira vira reprodução.

Um dos ensaios visuais é feito de cianotipias, em azul-da-prússia e branco, com peças de telefone, discos furados e grades desenhadas pela luz. Na página 50 a imagem aparece emoldurada por margem branca larga; na página seguinte, a fotografia mostra a própria cianotipia sendo segurada na frente do rosto de uma pessoa, e sangra até a borda.

Outro conjunto reproduz pinturas em formato de retábulo, de topo arredondado, uma por página, com legenda em itálico no pé: A luz nas primeiras horas da manhã, de 2026, e Outra vida, de 2025. As chamas laranja da capa reaparecem na segunda.

Nos ensaios de texto, a imagem entra como documento: uma gravura do século XIX ocupa o topo das duas páginas, com a legenda Perto da propriedade de Jundiquara no Distrito de Ubatuba, c. 1851 na linha de rodapé, junto ao número da página.
Ficha e onde comprar
176 páginas, brochura, 16 por 25 cm, ISBN 978-65-5691-197-7, idioma português, ano de publicação 2026. R$ 92 na loja da Editora Cobogó, com etiqueta de lançamento na página da revista. A editora não informa tiragem, periodicidade de banca, assinatura, data de fechamento da edição nem o nome das fontes tipográficas usadas no miolo.
O que a ficha diz a mais
A ficha técnica da página lista treze autores. Além dos citados na apresentação, aparecem Walter Benjamin e o Povo Urarina, que o texto não menciona. Emanuele Fabiano está no texto e não na ficha. E o físico é Pedro Lisboa num lugar e Pedro Lisbão no outro.
O Bloco Gráfico também não incluiu a Mote entre os projetos publicados no próprio site até 28 de setembro de 2026, embora assine capa e projeto gráfico na ficha da editora.



