O cone de luz do projetor
Festival de cinema é um dos briefings mais difíceis do design gráfico porque quase tudo já foi tentado: a claquete, a bobina, a poltrona vermelha, o grão da película, a fotografia em preto e branco de alguém olhando para cima. A saída aqui foi recuar um passo antes do filme e olhar para o equipamento que faz o cinema acontecer numa sala, que é o projetor, e mais especificamente para o cone de luz que sai dele e atravessa o ar cheio de poeira até bater na tela.
Desse cone vem a regra do sistema inteiro: um ponto de origem à esquerda, de onde partem faixas que se abrem em leque e ganham cores diferentes, com a leitura de que cada faixa é um olhar sobre o mesmo filme e que o conjunto delas, sobreposto, é o que forma a experiência coletiva de assistir junto. Como argumento de marca isso funciona melhor do que a média porque não é metáfora emprestada de outro assunto, é a descrição física do que acontece numa sessão.

O que acontece com o logotipo
A decisão mais arriscada do projeto está no nome. O logotipo é composto em caixa baixa, numa grotesca neutra, quebrado em quatro linhas, com as três preposições empilhadas numa coluna própria à direita, o que transforma a assinatura num pequeno bloco de texto justificado em vez de uma marca desenhada.
Esse bloco é então jogado sobre as faixas de luz sem nenhuma caixa de proteção, sem fundo, sem contorno, e onde passa uma faixa clara as letras brancas simplesmente desaparecem. A palavra québec fica meio apagada no cartaz, a palavra festival perde o começo, e o sistema não trata isso como defeito a corrigir, trata como o comportamento esperado de qualquer coisa colocada na frente de um projetor ligado.

Repetição no lugar de hierarquia
Em vez de um cartaz com um título grande e informação de serviço no rodapé, as peças repetem os mesmos quatro elementos em pontos diferentes da diagonal: o logotipo, a expressão 14e édition, as datas 10 09 25 e 14 09 25, e as preposições du e au soltas, empilhadas, quase como legenda de outro idioma.
O efeito é de um texto que escorre junto com a luz, legível em pedaços conforme o olho sobe ou desce a faixa, e isso resolve na prática um problema chato de festival, que é a quantidade enorme de informação obrigatória disputando o mesmo espaço com patrocinador. No programa impresso a mesma lógica vira grade: cada dia ocupa uma coluna, os títulos dos filmes entram em caixa baixa, e a cor fica inteiramente por conta das faixas.

As peças fotografadas em uso
Case de identidade costuma viver de simulação, e o que separa este da maioria é a quantidade de peça fotografada em uso: os cartazes colados em sequência num tapume, onde a diagonal de um continua no seguinte e a rua inteira vira um feixe só; o painel de fundo das fotos oficiais, com as pessoas recortadas contra as faixas; as telas verticais com o horário da sessão em números gigantes; e a identidade projetada na tela da sala durante a entrega de prêmios, com a luz do projetor refletindo no chão do palco e fechando o circuito da ideia.

O que veio antes
Esse sistema não apareceu do nada. A mesma agência já havia redesenhado a marca do festival no ano anterior, num projeto construído sobre desfoque e profundidade de campo, com fundos alaranjados e o nome repetido em camadas fora de foco, partindo da ideia de que o festival precisava voltar ao seu núcleo, que é o cinema, e de que a identidade deveria ser feita do mesmo material que a imagem projetada.
O que mudou de um ano para o outro foi a passagem do borrão para a linha, ou seja, do que a imagem parece quando sai de foco para o que a luz faz antes de virar imagem, mantendo a mesma família de cores saturadas e a mesma tipografia em caixa baixa. É uma continuidade rara de ver em festival, onde o normal é cada edição começar do zero com outro fornecedor.

Um sistema que serve a qualquer tema do ano
A programação de 2025 foi dedicada ao olhar das mulheres sobre o mundo, com a chamada les femmes enflamment l’écran, e nada disso aparece na identidade, o que é exatamente o ponto: o sistema é a casca que serve a qualquer tema, e a edição seguinte, dedicada a juventude, identidade e futuro, caberia dentro dele sem precisar refazer nada.
É esse o teste que separa identidade de campanha, e vale olhar com atenção para quem desenha para festival, feira ou bienal no Brasil, onde o contrato quase sempre pede uma coisa que pareça nova todo ano e acaba entregando uma marca que nunca acumula reconhecimento.



