Quem é
Natalia Sayuri Lara, que assina Nate, trabalha como designer gráfica há mais de oito anos e se apresenta como mulher amarela, designer, diretora de arte, curiosa, romântica e esperançosa. A base está nos grids, nas colunas e na tipografia do design editorial, e é dali que ela parte para o resto: ilustração, colagem, visualização de dados e identidade visual.
Antes de virar sócia de estúdio, ela passou pela redação. Esteve na Superinteressante, na Abril, entre 2020 e 2023, e depois na Paramount, no Porta dos Fundos, até 2024. Quem trabalhou em revista reconhece o vestígio disso no trabalho dela: a página continua sendo pensada como sistema, com hierarquia resolvida antes do enfeite, mesmo quando o resultado final é uma colagem cheia de textura.

O trabalho que mostra a régua
O conjunto mais revelador do portfólio não é um projeto único, e sim a série de colagens e ilustrações que ela fez em 2024 para a Rest of World, publicação americana sem fins lucrativos que cobre tecnologia fora do eixo ocidental, com direção de arte de Munira Mutaher.
São matérias sobre campanha política usando IA para falar com eleitor em outras línguas, sobre comida, sobre telefone, assuntos que normalmente recebem foto de banco de imagem ou ilustração vetorial genérica. O que ela entrega é outra coisa: recorte, trama, meio-tom, celular colado sobre fundo chapado, paleta saturada. Ilustração editorial com cara de quem leu a matéria.
Dados como linguagem visual
A parte de visualização de dados aparece com força num projeto autoral de 2023, em que os shows a que ela foi naquele ano viraram dado, e o dado virou identidade visual impressa em pôster e cartão. Não é gráfico de relatório, é infografia tratada como peça gráfica, com a mesma liberdade de paleta e de tipografia que ela usa no resto.
Esse é o ponto em que o trabalho dela se separa da maioria. Dataviz no Brasil costuma morar em dois lugares distantes: no jornalismo de dados, com estética sóbria, e na apresentação corporativa, com estética nenhuma. Ela trata número como matéria-prima de design, e isso abre uma vaga que quase ninguém ocupa.

Por que agora
O trabalho mais recente é um zine de viagem para Paris, de 2025, feito na tradição que ela e o estúdio mantêm de preparar um zine antes de cada viagem, com roteiro diário, informação de hospedagem e espaço em branco para preencher no caminho. Nessa edição, a encadernação virou livreto, com cadernos separados e papéis de tamanhos diferentes reunidos num volume só, e a palavra Paris foi desenhada do zero.
É um projeto pequeno e sem cliente, e é exatamente por isso que ele importa agora. Enquanto boa parte do mercado discute o que a IA vai fazer com o design, o que esse zine mostra é um tipo de produção que não é automatizável por natureza: decisão de papel, de dobra, de caderno, de letra desenhada para uma palavra só.
No mesmo espírito está o Kiribari, série que ela fez no Februllage de 2025, o desafio anual de colagem com tema diário. Em vez de só seguir a lista, ela incorporou o estudo de japonês, colocando palavras e frases do idioma dentro das composições, e transformou exercício de técnica em exercício de língua.

O trabalho comercial no Estúdio Drama
Nada disso é hobby de quem não tem trabalho comercial. No início de 2024, o Estúdio Drama criou as diretrizes de embalagem da linha Padoka, da Daki, e o projeto mostra a outra metade da cabeça dela: sistema escalável, padronagem por forma, cor por categoria e personagens tratados como adesivos, com a tipografia Olivita, da Plau, escolhida para reforçar a brasilidade. O resultado foi manual, não peça isolada.
Em editorial, assina o design, a diagramação e as vinte colagens de Transeunte, livro-diário de André Fatini sobre a travessia de bicicleta do Alasca ao Brasil, uma colagem por capítulo, feitas com as fotos do próprio autor. E desenhou e ilustrou a capa de Música Lenta, de Rainbow Rowell, publicada pela Rocco.

O estúdio
O Estúdio Drama nasceu do encontro dela com Laís Zanocco e Tiago Araujo, em torno de revista, colagem e ilustração, e hoje opera entre o Brasil e Barcelona. A definição que o estúdio dá de si mesmo responde bem ao momento: design como linguagem cultural, ferramenta para criar presença, narrativa e identidade, com valorização de processo autoral num cenário cada vez mais automatizado.
Além dos clientes, o estúdio mantém newsletter própria e uma loja onde vende o que produz, dois canais que mudam a relação com quem acompanha o trabalho: em vez de depender só de briefing que chega, eles publicam e vendem direto.

Onde acompanhar
O trabalho dela está em natesayuri.com, com as seções separadas por linguagem, colagem, dataviz, design e ilustração, além dos projetos autorais. No Instagram é @natesayuri, e o estúdio é @estudio.drama.



