Quem é Mayara Lista
Ela se apresenta em três palavras, nessa ordem: ilustração, quadrinhos, design. Mora no Rio de Janeiro e se formou em Comunicação Visual Design na Escola de Belas Artes da UFRJ, curso que cursou de 2011 a 2017. No meio disso passou o ano letivo de 2014 e 2015 na Kingston University, em Londres, como bolsista do Ciência sem Fronteiras, no bacharelado de Illustration Animation. Entre 2013 e 2017 foi monitora de desenho I, desenho II e desenho de observação na própria EBA. Em 2023 terminou o mestrado em Design na PUC-Rio, começado em 2021, com pesquisa sobre quadrinhos e bate-bolas.
A trajetória profissional saiu do editorial e passou pela animação antes de virar carreira autônoma. Foi estagiária de capa no Grupo Editorial Record entre 2016 e 2017, esteve no Mowe Studio em 2018 e no Copa Studio de setembro de 2018 a setembro de 2020, como ilustradora de cenário para animação. Desde 2020 trabalha como freelancer. A frase que abre o site dela resume a hierarquia do ofício: “o desenho é o coração da minha produção criativa”.
Por que agora
O motivo mais concreto está nas livrarias. Mayara virou a ilustradora que a Record chama para reeditar Rachel de Queiroz, e são três livros em quatro anos, todos lançados em março. O menino mágico saiu em 28 de março de 2022, com 112 páginas. Caminho de pedras, o romance engajado de 1937, veio em 11 de março de 2024, com 176 páginas. E Memórias de Menina chegou em 10 de março de 2025, com 48 páginas em formato grande, 27,5 cm por 20,5 cm, pelo selo Reco Reco. Nesse último ela não assina só as ilustrações: assina também a capa e o projeto gráfico.
Os prêmios chegaram antes e por caminhos diferentes. Em 2022 ela levou ouro no Latin American Design Awards, na categoria Editorial, zines e fotolivros, com o Quadrinhos Mascarados, feito no primeiro ano do mestrado. Em 2023 levou bronze no mesmo prêmio, agora em Ilustração, publicações, com os dois livros de poemas de Carlos Drummond de Andrade que ilustrou para a Record. Antes de tudo isso, em 2018, o Troféu HQMIX premiou como melhor trabalho acadêmico de graduação a monografia que documentou a criação de Naruna.
Há também o tamanho de alguns clientes, que raramente aparece na conversa sobre quadrinhos independentes. Em 2022 ela fez ilustrações e tipografia para o app do Nubank durante a Copa do Mundo do Catar, no projeto NU Bolão, dirigido pelo Oito Olhos e produzido pela Dirty Work. Em 2023 desenhou o material educativo das visitas escolares do AquaRio e do Bioparque, para o Grupo Cataratas, e fez character design para o filme publicitário de graduação da PUCPR, pela SOKO, num time que reunia seis pessoas só na etapa de layout de personagem.

O projeto: Memórias de Menina
Memórias de Menina reúne histórias curtas da infância de Rachel de Queiroz, e a apresentação do livro situa o leitor num tempo anterior às telas, de brincadeira ao ar livre, trovas populares e festa de Natal. A edição é de 2025, sai pelo Reco Reco e tem 48 páginas.
A capa aposta num amarelo saturado coberto por espirais rosa desenhadas a mão, que funcionam como padrão de fundo e não como enfeite de canto. No alto, uma menina de cabelo azul-marinho volumoso, laço rosa e pele marrom aparece de cima, em corte que deixa as mãos abertas no primeiro plano. O título é letra desenhada, em vermelho, com o I de MENINA virado na diagonal para quebrar a linha. O crédito vem logo abaixo, no mesmo lettering do título: “Rachel de Queiroz, ilustrações de Mayara Lista”. Na quarta capa, o mesmo amarelo recebe uma roda de ciranda com a avó no centro e quatro meninas de vestidos diferentes girando em volta.

No miolo, o partido é de cor chapada e página inteira. Numa das aberturas a página 15 é um fundo verde escuro ocupado por cinco meninas de uniforme, blusa branca de gola redonda com botões vermelhos e saia vermelha plissada, desenhadas quase iguais e deslocadas uma sobre a outra, como quadros de uma animação parados no papel. Os sapatos, em amarelo e vermelho, marcam a repetição na base. O texto fica na página oposta, em corpo pequeno, sobre o mesmo verde, e fala da escola e da tabuada dita em voz alta nos anos 1920. O corte do livro é impresso em faixas de amarelo e vermelho, o que aparece na lateral fechada.
Outros trabalhos
Gosto Ruim, de 2024, é a HQ autoral mais recente. São 28 páginas em A5, em preto e branco, sobre Milena, que aos 13 anos se apaixona pelo melhor amigo e sente por isso um desconforto e um gosto ruim na garganta. A capa é o oposto do miolo: rosa fluorescente, com o título em letra gorda e arredondada e o cabelo das duas personagens virando fumaça preta. Dentro, o desenho é de linha fina com retícula de pontos, e a autora usa a página inteira preta quando a narração vira dor.

O Quadrinhos Mascarados, de 2021, é o trabalho premiado com ouro no LAD e o mais estranho do repertório: um zine em formato de folder que se abre em losangos e se fecha como máscara para vestir, com fitas amarelas nas pontas. A peça se chama O Festejo como Testemunho e é baseada nos relatos de Marcelo Índio, Mestre Barbudo e Mestre Dodô de Acupe, do acervo Motirô, do Museu da Pessoa. Numa das abas há um QR code que leva de volta às entrevistas, e o rosto montado é uma cara vermelha de olhos vazados e dentes triangulares.

As outras três HQs autorais são Naruna, Espuma e Pequenina. Naruna, de 2018, tem 72 páginas coloridas em 17 por 24 centímetros e foi financiada no Catarse com 140 apoiadores em 35 dias: conta a história de uma aprendiz de escultora de carrancas que só consegue esculpir carrancas fofas. Espuma, de 2022, tem 13 páginas em preto e branco e saiu na antologia Harvi 01, com edição de Marcos KZ e Aline Zouvi. Pequenina, também de 2022, tem 20 páginas em A5, é artesanal e trata de duas meninas que se conhecem num parque de diversões e precisam aprender a impor limites.
Como ela trabalha
A página de contato do site é onde ela explica o método, e boa parte da explicação é sobre o que não aceita. Não faz comissão pessoal, porque no momento só pega trabalho comercial. Não faz quadrinho por encomenda, porque os quadrinhos dela são de autoria integral. E não vende original, porque ainda não consegue se desapegar.
O que aceita é ilustração para marca, editorial, capa e miolo de livro, infantojuvenil, cartaz, site, rede social, roupa, produto e mural, além de desenvolvimento visual, styleframe e design de personagem para animação. Para desenhar usa Illustrator, Photoshop ou Procreate, conforme o projeto, numa Wacom Cintiq 16 e num iPad Pro de 10,5 polegadas. Diz gostar especialmente de desenhar pessoas e animais em pose dinâmica, dançando ou praticando esporte, e mantém o desenho de observação e o modelo vivo em sketchbook físico.

A produção curta continua fora dos livros. Os quadrinhos que ela publica nas redes viraram uma seção do site, Short Comics, e alimentam a newsletter mais uma lista e o podcast Toda Quietinha, que ela descreve como um sketchbook sonoro.



