O livro
Mulheres na Tipografia: uma história conturbada tem 184 páginas num formato de bolso, perto de 116 por 189 milímetros, capa roxa com o título em serifada branca e, impressa em tom sobre tom, uma gravura antiga de uma mulher operando prensa. A capa já entrega o argumento do livro antes de qualquer texto: a imagem está lá, apagada, e é preciso inclinar o papel na luz para ler.
O projeto é o trabalho de conclusão de curso de Mari Pinheiro em Design Gráfico na Universidade do Estado de Santa Catarina, no segundo semestre de 2024. O conteúdo não é dela: vem da série de artigos que a professora Maureen Schaefer França publicou no blog Teoria do Design, e o crédito aparece na própria capa, dentro de um selo oval, como se fazia em livro antigo.

A pesquisa por trás
A série parte de uma distinção que a pesquisadora toma emprestada de Martha Scotford, de 1994, entre a história ordenada e a história conturbada. A primeira é a que todo mundo aprendeu, centrada em homens brancos da Europa ocidental e da América do Norte, construída com projeto, revista, jornal e premiação, as fontes que sempre existiram e sempre foram guardadas.
A segunda é caótica e fragmentada, feita de sobras, fiapos, notas de rodapé e arquivos empoeirados, quando existem. É a história de quem trabalhou sem assinar, de designers que a autora chama de sem rosto, e que precisa ser remontada a partir do que sobrou.
O achado mais potente da pesquisa está logo no primeiro artigo e explica a capa. Desde o século XVI, a alegoria da impressão foi construída como figura feminina: Typosine, a musa da tipografia, depois aproximada de Minerva, deusa das artes e da sabedoria, que virou padroeira das profissões ligadas à impressão. Gravuras do século XVIII mostram essa figura feminina apoiada numa prensa, cercada de putti que compõem letras.
Ao mesmo tempo, segundo a pesquisa, a presença de mulheres reais nas oficinas tipográficas foi tradicionalmente omitida, ignorada ou subestimada pelos historiadores da área. A imprensa era desenhada como mulher e narrada como coisa de homem.

O capítulo brasileiro
A série não para na Europa. Um dos artigos trata das tipógrafas brasileiras do século XIX, período em que a historiografia costuma descrever o país como um deserto gráfico por causa da proibição de imprimir imposta pela Coroa portuguesa. Ali aparecem as mulheres que compunham texto em oficina, incluindo um registro fotográfico de 1899, em Goiás, de compositoras ao lado do homem que as orientava, a quem a legenda da época credita o papel de educador.
É um detalhe que resume o mecanismo do apagamento. A foto existe, as trabalhadoras estão nela, e o nome que sobreviveu no crédito é o do homem em pé ao lado.
As 50 contemporâneas
A parte que transforma o livro de retrospectiva em instrumento de trabalho está no fim: uma lista de 50 mulheres que desenham tipos hoje, com recorte explícito para fora do eixo Europa e Estados Unidos.
Isso responde à objeção mais comum quando o assunto aparece, a de que não se encontram nomes. Encontram, e estão listados, com a vantagem de serem contemporâneas, contratáveis e em atividade, o que muda a conversa de denúncia histórica para agenda de contato.

Edição, formato e conteúdo licenciado
Projeto de conclusão de curso costuma morrer no PDF entregue à banca. Este virou objeto: tem edição, tem sistema tipográfico coerente, tem decisão de formato, e o conteúdo foi licenciado de uma pesquisadora em vez de inventado por quem desenhou.
O livro também ganhou o Latin American Design Awards de 2025, na categoria Editorial Estudante, e a versão completa está publicada em folheador digital, aberta para qualquer pessoa ler.
Há uma ironia no caminho do prêmio, e ela diz algo sobre o circuito latino- americano: o Latin American Design Awards está hoje fora do ar, com o endereço de inscrições sem carregar e nenhuma edição nova divulgada. O selo continua valendo no currículo; a organização que o entregou, não.
Para ensino e para contratação
Para quem ensina, o livro serve de bibliografia pronta em português, com fonte acadêmica e desenho que não parece apostila. Para quem contrata, a lista final é atalho direto. E para quem está na fila do trabalho de conclusão, fica o método: pegar pesquisa que já existe, pedir licença à autora, creditar na capa e fazer o que designer sabe fazer, que é dar forma legível a uma coisa que estava dispersa em sete artigos de blog.



