O que foi contado
O episódio 76 do Finding Our Way, podcast de Peter Merholz e Jesse James Garrett sobre liderança em design, saiu em 14 de agosto com a transcrição completa publicada junto. A convidada é Chengying Zheng, líder de operações de design que se apresenta como Z, e a história que ela conta começa num encontro no escritório do Figma, quando disse a Merholz que tinha passado os três meses anteriores tirando o time dela do Figma e levando tudo para ferramentas de IA.
A frase que resume a mudança não é sobre abandonar a ferramenta, e sim sobre o lugar dela mudar: no fluxo novo, segundo Z, o Figma deixou de ser onde o protótipo é feito e virou onde o wireframe é desenhado, com a prototipação acontecendo na escrita de código, seja qual for o assistente do momento.
Quem decide o comportamento do produto
A diferença entre wireframe e protótipo parece vocabulário interno, mas ela define quem decide o comportamento do produto. Enquanto o protótipo clicável era feito no Figma, a definição de interação ficava com o design. Quando o protótipo nasce em código, essa definição migra para quem escreve o código, mesmo que quem escreva seja o próprio designer com um assistente ao lado.
É aí que entra a parte mais desconfortável da conversa. Z argumenta que reclamar da qualidade do que o engenheiro entrega não leva a lugar nenhum se o time de design nunca explicou o que considera bom e por que aquilo importa, e que esse trabalho de explicitar padrão quase nunca foi feito. Numa operação em que qualquer pessoa da equipe monta interface, o padrão que não está escrito simplesmente não existe.
Títulos e contratação
A terceira parte do episódio trata do que acontece com títulos quando designer, engenheiro e gerente de produto passam a construir com as mesmas ferramentas. A pergunta prática que Garrett coloca é a de quem escreve vaga: que título vai no anúncio quando a pessoa que você procura desenha, programa e às vezes decide escopo?
Para quem trabalha com design no Brasil, essa é a conversa que está chegando pelas vagas antes de chegar pelos processos. Descrição de vaga pedindo prototipação em código, familiaridade com assistente de IA e leitura de componente em repositório já aparece em anúncio de produto daqui, e o episódio ajuda a entender de onde vem esse pedido: não é modismo de recrutador, é consequência de times que mudaram onde o protótipo é feito.
A fase que Z chama de caos
Z chama de caos a fase em que cada pessoa do time trabalha de um jeito diferente, e o argumento dela é que operações de design deixou de ser padronizar processo para virar outra coisa: tornar o caminho bom mais fácil do que o caminho ruim. Em vez de um fluxo único para todo mundo, o trabalho passa a ser deixar o padrão de qualidade acessível dentro das ferramentas que cada um está usando.


