Abril de 2025: o memorando
O e-mail foi enviado à empresa em 20 de março de 2025, com o assunto “AI usage is now a baseline expectation”. Em 7 de abril, Lütke o publicou no X dizendo que o texto estava vazando. No item sobre contratação, ele escreve que, antes de pedir mais pessoas e recursos, as equipes precisam “demonstrar por que não conseguem fazer o que querem usando IA”, e sugere a pergunta: como seria a área se agentes autônomos de IA já fizessem parte do time.
O memorando também:
– põe perguntas sobre uso de IA na avaliação de desempenho e entre pares; – manda incluir IA na fase de protótipo de todo projeto; – lista as ferramentas já disponíveis, entre elas Copilot, Cursor e Claude Code; – diz que a regra vale para todos, incluindo o próprio CEO e a diretoria.
No texto, Lütke conta ter visto colegas usarem IA para fazer “100X” o trabalho. Na época, a CNBC (Annie Palmer) registrou que o diretor financeiro, Jeff Hoffmeister, tinha dito em março, num evento do Morgan Stanley, que a empresa podia manter o quadro de funcionários relativamente estável.
Setembro de 2026: o podcast
A entrevista a Shane Parrish, no The Knowledge Project, saiu no YouTube em 15 de setembro. A maior parte trata de como Lütke usa IA, incluindo o River, um colega de IA da Shopify com memória, personalidade e permissão para contestar o CEO. O trecho em questão está no capítulo “What AI is Making Worse at Shopify”, a partir de 16:04, quando Parrish pergunta se a IA piorou alguma coisa na empresa.
Segundo os relatos da Fortune (Mia Osmonbekov) e da Search Engine Journal (Matt G. Southern), Lütke respondeu que a falha do trabalho preguiçoso deixou de ser produzir pouco e passou a ser produzir demais. Deu dois exemplos: o funcionário que pede uma mudança de código a um agente, aprova sem ler e deixa a revisão para os colegas; e o que transforma um ponto curto num e-mail longo, que quem recebe encurta de novo com outro modelo. “A gente chama isso de ‘slop grenades’, que as pessoas jogam umas nas outras”, disse, segundo a Fortune, acrescentando que isso é ruim. O conselho dele: usar o modelo para encurtar, não para alongar.
Na mesma conversa, segundo a Search Engine Journal, Lütke disse que máquinas não assumem responsabilidade pelo trabalho, pessoas sim, e estimou que até cerca de metade dos pull requests da Shopify nasce de conversas no chat interno onde o River trabalha.
O que é “slop” e o que é “slop grenade”
O dicionário Merriam-Webster define slop como conteúdo digital de baixa qualidade, produzido geralmente em quantidade por meio de inteligência artificial. Foi a palavra do ano de 2025 do dicionário, como noticiou a CNBC (Lora Kolodny).
“Slop grenade”, granada de slop, é o nome para o trabalho de IA passado a um colega sem revisão. No X, Parrish resumiu assim: deixar a IA produzir e passar adiante sem acrescentar valor, nem conferir. Lütke creditou o termo a Harry Brundage, que respondeu tê-lo tirado do site noslopgrenade.com. O site descreve a prática como colar uma resposta enorme gerada por IA num chat ou e-mail em que uma pessoa escreveria uma frase.
O que mudou na Shopify entre as duas falas
– Adoção. Em outubro de 2025, texto de Daniel Beauchamp no site da Shopify citou o memorando e afirmou que a empresa tinha chegado à adoção universal de editores de código com IA, com milhares de licenças do Cursor e acesso ilimitado a modelos de ponta para todos os times. Registrou também mais de 5.000 sites de protótipo criados na plataforma interna Quick desde meados de 2025. – Quadro de funcionários. Nos relatórios anuais entregues à SEC, a Shopify tinha cerca de 8.100 funcionários no fim de 2024 e cerca de 7.600 no fim de 2025.
Quem mais entrou no assunto
A BetterUp Labs e o Stanford Social Media Lab chamam de “workslop” o trabalho feito por IA que parece bom e não tem substância. Na pesquisa de setembro de 2025, com 1.150 trabalhadores de escritório nos Estados Unidos, 40% disseram ter recebido workslop no mês anterior, e cada caso levava em média duas horas para resolver.
A Fortune lembrou o caso do Duolingo: o CEO Luis von Ahn anunciou em 2025 que a empresa seria “AI-first” e, em maio de 2026, disse à Fast Company que tinha se empolgado com a IA, que não iguala a criatividade da equipe quando ganha escala.


