Quem fala
Susan Kare se apresenta no próprio site como iconógrafa de computador, baseada em San Francisco, desenhando ícones de software desde 1983. Na palestra ela lembra que tinha doutorado em história da arte e experiência só com letras decalcadas e etiquetas de museu quando o amigo de escola Andy Hertzfeld, programador de sistema da Apple, a chamou para desenhar símbolos e fontes para um computador que ainda nem tinha gabinete. Para a entrevista, levou livros de tipografia da biblioteca de Palo Alto e desenhos feitos em papel quadriculado. Segundo ela, o caderno com esses primeiros ícones hoje está no acervo da MoMA.
A abertura é um conselho de Paul Rand, com quem trabalhou depois: fazer coisas significativas e memoráveis. O resto da palestra é, de certo modo, uma série de exemplos dessa ideia.
Criar dentro da restrição (a partir de 06:35)
O objetivo repetido na equipe era um computador que qualquer pessoa pudesse usar, sem manual e com cara amigável. O primeiro ajuste citado é de texto: o botão Do It virou OK porque muita gente lia Dolt. Os ícones cabiam em 16 por 16 pixels, em preto e branco, e Kare defende entender a restrição e se animar com ela, em vez de lamentar não ter mil cores.
A primeira fonte foi a Chicago, com nove pixels de altura de maiúscula, desenhada só com horizontais, verticais e ângulos de 45 graus para tirar o serrilhado da tela. O Mac permitia espaçamento proporcional, algo que ela diz não ter percebido na época como avanço. A Chicago foi para a barra de título e, anos depois, para o primeiro iPod. As fontes começaram com nomes de cidades do subúrbio da Filadélfia, onde Kare e Hertzfeld estudaram, até Jobs pedir cidades de primeira linha: daí vieram New York e Geneva.
Para desenhar, Hertzfeld escreveu um editor de ícones sem nenhuma ferramenta: dava para ligar e desligar cada bit, ver a ampliação e o tamanho real, e o programa gerava o código hexadecimal do ícone.
Pouco detalhe, mais significado (a partir de 14:45)
O Happy Mac tinha 32 por 32 pixels e aparecia enquanto o Mac de 128K demorava para ligar, só para dizer que estava tudo bem. Para explicar a lógica, Kare usa o livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud: um rosto cheio de detalhe parece outra pessoa, e um rosto simples deixa qualquer um se projetar nele. Um lápis desenhado com poucos traços representa escrever melhor que uma caneta cromada com reflexo. A regra dela é um ou dois detalhes salientes, como nas placas de trânsito.
Ela mostra também o que não deu certo. O ícone da bomba, para falha total do sistema, foi feito como piada porque ninguém o veria; uma usuária ligou para a Apple com medo de o computador explodir. O ícone de imprimir reproduzia o papel com furos da impressora ImageWriter e envelheceu mal, assim como o disquete que ainda significa salvar. Melhor usar metáfora do que retratar um produto específico. Na mesma linha, o cursor de espera virou um relógio de pulso em vez de ampulheta.
A tecla Command (a partir de 22:44)
A ideia inicial era pôr uma maçã na tecla de atalho, mas Jobs vetou: o logo era precioso e não podia virar uma fazenda de maçãs. Kare voltou à biblioteca e achou num livro um sinal que ali se chamava feature, parecido com um trevo de quatro folhas e fácil de desenhar em 16 por 16. Ela conta que se incomodava por ser abstrato, até descobrir na Suécia que o mesmo sinal marca pontos turísticos e, segundo lhe disseram, representa o castelo de Borgholm visto de cima, com suas quatro torres.
Daí ela puxa um ponto de história da arte: pessoas fazem pequenos símbolos há muito tempo, dos hieróglifos a letras em grade feitas mais de 200 anos antes das fontes do Mac. E o essencial, diz, nunca foi a grade de pixels, e sim a metáfora e o significado.
Depois da Apple (a partir de 30:18)
Kare passa rápido por trabalhos posteriores: o Windows 3.0 para a Microsoft, com 16 cores e o jogo Paciência; o logo e a metáfora de área de trabalho da General Magic; os presentes digitais de um dólar do Facebook, onde por quase quatro anos lançou um desenho por dia e aprendeu que o fofo vence o luxo (a marca de beijo foi o mais vendido); ícones para o Pinterest; e emblemas em pixel para uma carteira de criptomoedas da Ledger. No caso das opções de alarme para a Swatch, mostra como gera várias versões e aproveita até o que o programador pôs como provisório.
Os conselhos (a partir de 36:32)
A parte final reúne frases de gente que a influenciou. Na NeXT, empresa que Jobs fundou depois de sair da Apple, ele queria um concurso com cinco escritórios pagos a US$ 15 mil cada; Paul Rand cobrou US$ 100 mil por um logo só, que seria aprovado, e foi o que aconteceu. Rand defendia trabalhar sobre o próprio nome do produto e dizia que ninguém precisa de muitas fontes, só saber usá-las.
Outros conselhos: Hertzfeld recomendava mostrar várias opções a Jobs, nunca uma só; Dennis Hwang, do Google, contou que a regra da casa era não brincar com o logo até as pessoas o conhecerem muito bem; uma frase do futurista Paul Saffo a faz lembrar que nada leva só uma hora. No meio dessa parte, Kare conta que pintou com o programador Steve Capps a bandeira pirata hasteada no prédio do Mac, depois de um offsite em que Jobs listou três objetivos.
Assista
A palestra completa, com capítulos, está no canal da Y Combinator no YouTube: Susan Kare: Designing Icons & Graphics For the Original Mac. A transcrição em inglês está no Root Access, linkado na descrição do vídeo.


