Quem é João Generoso
Ele se define numa linha em caixa alta no alto do site: cria sistemas visuais flexíveis e desenvolve ferramentas interativas de design. A especialidade declarada são fluxos procedurais aplicados a design gráfico, programação criativa, motion, 3D e interfaces.
A formação é de arquitetura. Cursou a FAUUSP de 2016 a 2022, com um ano de intercâmbio na Universidade de Lisboa, e ainda na graduação entrou no Demonumenta, pesquisa da faculdade sobre fotogrametria, modelos 3D na web e realidade aumentada. Voltou depois como pesquisador de interface em arquivamento digital, no grupo de Giselle Beiguelman, entre 2024 e 2025.
A carreira começou em 2021, com um estágio no escritório 0E1 Arquitetos e a entrada na Bijari, onde ficou até 2025 como designer e motion designer. Em 2025 foi contratado pela FutureBrand como designer sênior e programador criativo, e mantém trabalho independente em paralelo desde 2021. O site dele é obra própria: a primeira linha do código traz um comentário escondido dizendo que tudo ali foi desenhado e programado por ele.
Por que agora
Em 2026 a Amazônia Legal ganhou marca própria, feita pela FutureBrand para a Embratur, para reforçar os nove estados da região como destino de turismo. João entrou no projeto com a Igaratype, e a peça foi para Cannes: o portfólio dele registra três leões de prata e cinco shortlists no Cannes Lions 2026. Em 27 de abril de 2026 o Brand New, do UnderConsideration, publicou a marca em texto assinado por Armin Vit.

O ano rendeu mais prêmios em outra frente. A identidade da Sertrading, feita na FutureBrand em 2025, com ferramenta de geração assinada por ele, venceu o iF Design Award 2026 e o Red Dot Design Award 2026. A marca da Young Lions Brazil, também da FutureBrand, levou outro Red Dot em 2026.
Antes disso, o histórico já era longo para quem se formou em 2022. O Sumaúma levou ouro no Latin American Design Awards de 2024, o iF do mesmo ano, seleção na Bienal Ibero-americana de Design e prêmio no Design for a Better World. A Nike Ibirapuera venceu o iF de 2023 e entrou na Bienal Brasileira de Design de 2024. No Brasil Design Awards de 2024 vieram prata para o Sobre Nós e bronze para o Arqueologias do DOI-CODI, e o portfólio saiu na Slanted Magazine #47.
Ele também virou pauta de palco: Processing Community Day de 2023, sobre sistemas de design com p5.js; Compoética de 2025, sobre shaders; Semana do Design do Itaú de 2025; e Dobra Design de 2026, na FAUUSP.
O projeto: Sunset
O Sunset é uma série de 365 gradientes de céu feitos ao longo de 2025 e publicada em 2026 como página interativa. A origem é doméstica: depois de anos morando num quarto cuja janela dava para um muro de concreto, ele passou a escolher onde morar pela vista, e a janela atual dá para o pôr do sol.
Observando todo dia, percebeu que o céu muda de paleta com a estação. A tríade laranja, magenta e roxo anuncia os dias curtos do outono, enquanto a primavera traz amarelos cítricos e verdes suaves que se estendem pelo verão. E que o protagonista não é o sol: são as nuvens que interceptam a luz e revelam os gradientes.
O registro não podia ser fotográfico, porque, segundo ele, quase ninguém consegue fotografar um pôr do sol inteiro. A solução foi pintar. Cada gradiente foi feito no sistema de materiais do Blender, como textura aplicada a um plano, e virou corrida contra o tempo: enquanto ele buscava a cor de um ponto do céu, outro já tinha mudado.

No arquivo do Blender os planos ficam na horizontal por data e na vertical por hora, e cada objeto leva no nome a data e a hora do registro. O projeto começou em meados de janeiro de 2025 e terminou o ano com 365 gradientes, feitos em 162 dias: na maioria deles ele anotou o céu mais de uma vez, em sequência, para pegar a passagem do dia para a noite.
A página veio depois e por acaso. Ele terminou 2025 exausto, se proibiu de trabalhar com design no recesso e só em abril de 2026 teve a ideia de juntar os gradientes com a vontade antiga de aprender Three.js. Montou uma planilha com índice, data, hora e códigos de cor e posicionou cada gradiente nas coordenadas de um globo: a data virou longitude, a hora virou latitude. O resultado é a faixa inclinada da abertura deste texto, que mostra a duração do dia mudando ao longo do ano em relação a uma linha fina que marca exatamente 18h00.

A parte técnica tem uma economia bonita. Todos os planos compartilham a mesma geometria e o mesmo material. Para exibir as 365 variações sem pesar a página, em vez de uma imagem por plano, os gradientes foram comprimidos numa única textura de faixas finas, que é a imagem acima, e cada plano fatia a faixa do próprio índice. Quem é visto por trás fica escurecido. De perto, cada gradiente abre os códigos de cor que o compõem, em RGB, HEX e vec3, mais a interpolação usada. A página usa Three.js com HTML e CSS puros.
Outros trabalhos
A Igaratype é o projeto que mais se parece com o Sunset em método, e o mais público em alcance. É um sistema de tipos variável publicado como página aberta, com alfabeto latino completo, numerais arábicos, quatro acentos e até quatro variações por caractere, que exporta como imagem, vetor, vídeo ou sequência. As letras são trechos reais de rios da Amazônia vistos de cima, cada um identificado com nome e coordenada: o Madeira e o Juma no Amazonas, o Muru e o Iaco no Acre, o Catrimani em Roraima, o Pericumã no Maranhão. A marca Amazônia é trabalho coletivo, com pesquisa da Assobio e da Timelens, ilustração de Winny Tapajós, Cristo, Beatriz Belo, Malu Menezes, Rogério Pedro, Norte e Black Madre, lettering do Instituto Letras Que Flutuam e de Odir Abreu, e a fonte Aberta, da Naipe Foundry.

A Sertrading é o mesmo papel em outro assunto. A empresa lidera o comércio exterior no Brasil e movimenta mais de R$ 29 bilhões por ano, e o reposicionamento veio depois da aquisição pelo BTG Pactual. A FutureBrand tirou os grafismos da lógica do código de barras, e ele fez a ferramenta que transforma esses padrões lineares em composições que vão de estruturas modulares a ilustrações abstratas, estáticas e animadas.
O Sumaúma, feito na Bijari entre 2022 e 2023, é a identidade do jornal que vem do coração da Amazônia. O logotipo saiu das sapopembas, as raízes largas da árvore, somadas a padrões indígenas, e as letras são geradas por código: mudando poucos parâmetros saem variações e animações. Depois veio uma ferramenta para a equipe de comunicação montar posts dentro da identidade.
Na Nike Ibirapuera, de 2022, também pela Bijari, o assunto era espaço físico: a requalificação de uma quadra de basquete e de um campo de futebol no parque. Ali ele desenhou todos os padrões e os estudos dos espaços, do conceito ao desenho final, além das visualizações 3D.
Como ele trabalha
O padrão está à vista no portfólio: na maior parte dos projetos profissionais ele é o convidado que constrói a ferramenta, e a ferramenta é que produz as peças. Na Sertrading, no Sumaúma, na FAUUSP, no Cubo Itaú e na Amazônia, a palavra que se repete na ficha técnica é a mesma, tool. Na Semana do Design do Itaú de 2025 o material foi um gradiente audiorreativo em shaders do Blender: as frequências altas da trilha controlam a velocidade, as baixas distorcem o gradiente.
As ferramentas que ele nomeia são Blender, Three.js e p5.js, e a referência que credita é Tim Rodenbröker, cujo curso de ferramentas de design em p5.js está linkado no site. Ele devolve isso em aula: mantém um curso introdutório de Blender gratuito no YouTube.
A novidade recente é escrever. Junto com o Sunset ele abriu o Processo, blog em que pretende mostrar o bastidor dos projetos pela ótica da programação criativa, porque a fase de desenvolvimento, a favorita dele, raramente ganha espaço de discussão na mesma escala do produto final.



