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Quando quem lê é robô, o próximo tutorial não vai ser escrito

Opiniãopor Ian Baltazar

Em setembro o blog 2ality saiu do ar, e para quem programa em JavaScript isso é menos banal do que parece, porque durante quinze anos aquele endereço foi onde a gente entendia o que mudava em cada versão da linguagem, com explicação escrita antes de a documentação oficial dar conta, a ponto de quase todo mundo que aprendeu a linguagem entre 2012 e 2024 ter passado por lá, mesmo sem lembrar.

No lugar do blog ficou um aviso curto do autor, Axel Rauschmayer, dizendo que a renda com a venda dos livros dele, que em 2024 dava para viver, hoje é zero, e que o tráfego do blog e dos livros gratuitos cresceu além do que ele consegue pagar, quase todo vindo de robôs de coleta de IA que não trazem receita nenhuma.

Lidas juntas, as duas frases desmontam a explicação preguiçosa que costuma aparecer quando um site fecha, porque não houve falta de interesse: o material continuou sendo procurado, a ponto de estourar o orçamento, só que quem procurava não era mais gente.

O 2ality não saiu do ar por falta de leitor: saiu porque o leitor virou robô, com tráfego recorde e receita zero.

A diferença entre as duas audiências não é filosófica e sim contábil, porque o leitor humano clica em anúncio, assina newsletter, compra o livro, indica para o colega e às vezes contrata o autor para uma consultoria, enquanto o robô de coleta consome banda, copia o texto e devolve zero, de modo que o conteúdo segue o mesmo, o custo também, e o que sumiu foi justamente a ponta que pagava a conta.

O caso não é isolado, e é aí que ele deixa de ser uma história triste sobre um alemão que escrevia sobre JavaScript. Josh Comeau, que faz cursos interativos caríssimos de produzir, relata queda de mais de 50% na receita, e Kyle Cook, que mantém um canal grande de tutoriais, diz ganhar metade do que ganhava um ano atrás e admite o óbvio, que vídeo sobre modelo de IA dá mais audiência e custa menos do que tutorial de programação. Salma Alam-Naylor, depois de cinco anos e meio em relações com desenvolvedores, encerrou a vida pública on-line escrevendo que a IA está matando a educação em desenvolvimento.

Cada um desses casos, isolado, é uma decisão de carreira, mas juntos eles descrevem a erosão de uma cadeia inteira de formação que nunca foi institucional. Ninguém aprendeu a fazer web na faculdade: aprendeu num blog, num livro barato, num canal do YouTube ou num curso caseiro de quatrocentos reais, quase sempre de graça, bancado por venda, patrocínio ou anúncio, e sustentado pela premissa de que em algum momento um humano chega na página.

Quando a resposta passa a ser entregue dentro do chat essa premissa cai, e o texto continua trabalhando, agora como insumo, lido, processado, reembalado e entregue sem link, sem crédito e sem visita, de forma que o trabalho segue sendo usado enquanto o uso é que parou de voltar.

A parte que me interessa como problema de produto é o que isso faz com o incentivo, porque hoje o modelo responde bem sobre JavaScript graças a quinze anos de alguém explicando JavaScript com cuidado, e essa explicação existiu porque havia uma economia, ainda que modesta, que pagava por ela. Acabando a economia, o material novo não aparece, e ninguém do lado de cá sabe responder de onde virá a explicação boa da linguagem que ainda não foi inventada.

Não se trata de nostalgia e sim de estoque, já que modelo treina em acervo e acervo não se renova sozinho, o que deixa a indústria mais dependente de gente escrevendo com clareza na posição incômoda de tornar inviável escrever com clareza.

As saídas que existem passam todas por dinheiro, seja licenciamento pago para treino em acervo técnico, que algumas editoras já negociam, seja patrocínio direto de quem mantém documentação, coisa que as empresas grandes fazem por infraestrutura mas não por texto, seja assinatura de leitor, que funciona para meia dúzia de nomes. Nenhuma delas nasce sozinha nem rápido.

Enquanto isso o custo aparece disfarçado, não como um site fora do ar, que é fácil de notar e rende um post, mas como a explicação que não foi escrita, o exemplo que não foi testado e o erro comum que ninguém documentou. Nada disso dá manchete, e só vai aparecer daqui a dois anos, quando alguém perguntar ao chat como fazer uma coisa nova e a resposta vier confiante, fluente e errada.

Rauschmayer escreveu que a decisão sobre o que fazer pode levar meses e que não tem energia para lidar com isso agora, frase de quem cansou depois de quinze anos explicando de graça o que a indústria inteira precisava entender. Os robôs, esses, continuam batendo na porta todo dia.

Ficha

Fonte oficial 2ality · Axel Rauschmayer
Saiba mais em molily · Mathias Schäfer · whitep4nth3r · Salma Alam-Naylor

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