O aviso que ficou no lugar do blog
Quem abre o 2ality hoje não encontra mais os textos sobre ECMAScript que Rauschmayer publica desde 2011. Encontra uma página branca com duas frases que explicam a conta. A primeira: a renda com a venda dos livros passou de suficiente para viver, em 2024, a zero, em 2026. A segunda: o tráfego do blog e dos livros, que eram gratuitos para ler online, cresceu além do que ele consegue pagar, e quase tudo vem de robôs de coleta de IA, que não geram receita de anúncio.
A decisão, escreve ele, é tirar tudo do ar até decidir o que fazer, em especial sobre empresas de IA se apropriando do trabalho dele. E avisa que isso pode levar meses, porque não tem energia para lidar com o assunto agora. O site dos livros, o Exploring JavaScript, mostra o mesmo texto. Os títulos continuam à venda no Payhip.
Robô lendo e fatura de banda
Sites saem do ar todo dia por falta de tempo ou de dinheiro. O caso aqui tem uma inversão que vale registrar: o material continuou sendo procurado, e é justamente por isso que saiu. Quando a maior parte das visitas vira robô lendo para alimentar modelo, o conteúdo gratuito deixa de trazer leitor, patrocínio ou venda de livro, e passa a ser só uma fatura de banda.
Rauschmayer não é um autor qualquer nesse assunto. O 2ality foi por anos o lugar onde desenvolvedores de língua inglesa iam entender o que mudava em cada versão do JavaScript, com explicação técnica antes de a documentação oficial chegar.
Não é um caso isolado
O desenvolvedor alemão Mathias Schäfer reuniu em 14 de setembro uma série de relatos parecidos de quem vive de ensinar desenvolvimento web. Salma Alam- Naylor, que passou cinco anos e meio em relações com desenvolvedores, publicou um texto de despedida da vida pública on-line com uma seção intitulada “a IA está matando a educação em desenvolvimento”. Ela descreve fóruns mortos, comunidade dispersa e gente trocando colaboração entre pessoas por conversa com robô, e conta que aceitou uma vaga de engenheira sem exposição.
No mesmo apanhado estão Josh Comeau, que faz cursos interativos sobre CSS e React e relata queda acima de 50% na receita, e Kyle Cook, do canal Web Dev Simplified, que diz ganhar metade do que ganhava um ano antes e admite que vídeo sobre modelo de IA é mais fácil de fazer, rende mais e dá mais audiência do que tutorial de programação. A editora e escritora Rachel Andrew vem publicando desde fevereiro uma série sobre como a IA generativa quebrou a relação entre especialista e editor na publicação técnica.
A cadeia de material gratuito que formou a web
A cadeia que formou boa parte de quem trabalha com web nos últimos quinze anos não era institucional. Era um blog, um livro barato, um canal, um curso caseiro, material quase sempre gratuito bancado por venda, patrocínio ou anúncio. O modelo dependia de leitor humano chegar até a página.
Quando a resposta passa a ser entregue dentro do chat, o texto original continua sendo lido, só que por máquina, e quem escreveu para de aparecer na conta. O resultado não é só um blog fora do ar: é menos incentivo para alguém escrever a próxima explicação boa, aquela que o modelo vai precisar ler para responder na vez seguinte.



