Há poucos anos, transformar uma ideia em algo que pudesse ser clicado exigia tempo suficiente para que várias perguntas aparecessem no caminho. Era preciso desenhar fluxos, montar telas, escrever código, negociar escopo. Boa parte desse trabalho continua existindo, mas a distância entre uma ideia e uma interface funcional diminuiu bastante.
A própria Figma reconheceu isso nesta semana. Em um texto publicado em 24 de setembro, Paige Costello, vice-presidente de produto da empresa, escreveu que hoje é possível sair de um prompt para algo clicável em poucas horas. O problema, segundo ela, é que velocidade não responde às perguntas que realmente definem um bom produto: esta é a melhor direção ou apenas a primeira? Isso parece algo que só esta empresa faria? Vale mesmo construir?
É uma constatação interessante vinda justamente de uma empresa que ajuda a tornar prototipação e construção cada vez mais rápidas.
Durante muito tempo, uma parte importante do trabalho de produto estava em conseguir materializar uma hipótese. Antes de discutir uma solução, era preciso torná-la visível. Antes de testar cinco caminhos, muitas equipes mal conseguiam produzir um, e hoje a IA está reduzindo esse custo.
Isso parece apenas positivo até percebermos que uma restrição desapareceu junto com ele. Quando produzir alternativas era caro, havia um incentivo natural para pensar antes de fazer. Quando cada alternativa pode aparecer em minutos, o risco passa a ser outro: o de confundir facilidade de produção com qualidade de decisão.
Uma interface convincente não é evidência de que existe um bom produto por trás dela. Ela pode demonstrar que uma ideia é tecnicamente possível, pode ajudar uma equipe a enxergar uma hipótese ou tornar uma conversa menos abstrata. Mas também pode dar acabamento demais para uma decisão que ainda não amadureceu.
Essa diferença importa porque protótipos têm poder de persuasão, e quanto mais próximos parecem de um produto real, mais fácil é tratá-los como algo que já foi decidido.
A IA barateou produzir alternativas; decidir qual delas merece existir continua caro.
A primeira solução deixa de parecer uma hipótese e começa a parecer um projeto. Não por ser melhor, mas por estar pronta antes das outras.
Esse talvez seja um dos efeitos menos discutidos da aceleração promovida pela IA em produto: o gargalo não desapareceu, ele apenas mudou de lugar. Se antes a dificuldade estava em transformar uma ideia em algo concreto, agora ela está cada vez mais em decidir qual das muitas coisas que conseguimos construir merece existir. E isso exige competências que não ficaram mais fáceis com um prompt.
Entender o problema continua sendo difícil. Fazer escolhas continua sendo difícil. Reconhecer uma solução genérica continua sendo difícil. Abrir mão de uma ideia tecnicamente viável porque ela não resolve nada importante continua sendo difícil, e talvez até mais.
A Figma resume essa mudança em três dimensões: velocidade, direção e diferenciação. A primeira está ficando barata. As outras duas, não.
É uma inversão interessante para um mercado acostumado a medir produtividade pelo volume de coisas produzidas. Se qualquer equipe consegue gerar cinco propostas em vez de uma, a vantagem não estará em produzir a sexta. Estará em saber por que nenhuma das cinco primeiras deveria seguir adiante.

